Ela sente sozinha. Com a sua música triste de fundo, ninguém sente igual a ela. E o nó amargo que lhe sobe a cabeça descendo vértebras tilintando ossos é só dela. Porque quando uma vez na sua mínima existência foi dois ao invés de um sozinho, ele lhe disse que aquela música era sua. Então foi só dela.

Quando a porta bateu e ela nasceu de novo a única coisa que ficou foi a música, que ironicamente dizia que a tristeza nunca mais. E foi tão infinitamente triste de ser só dela de novo que não havia nota e melodia e canto que a fizessem olhar para fora da sua solidão.

Sentia falta dela dentro de si mesma, perdida em tempo que deitava no colchão no chão, tudo em volta era feito de conforto e respirar era só isso que é.

Encolhida e acolhida pelos braços do outro que era um pedaço dela, ouvia a música tocar e sentia. Sentia tanto que poderia se desfazer ali e nunca mais voltar para lugar algum que a chamassem pelo nome que não reconhecia como seu.

Só era quando estava ali. Quando morria ali na última nota do seu lado de dentro que era ele fora.

Mas agora não. Ela sente sozinha porque nem sente mais como sentia. Não sabe mais o que era, não lembra do que é ser, do que é dois. Perdida entre rumos e buracos e falsas alegrias, ela já não sabe o que é. Mesmo com a música dizendo nunca mais e ela sentindo sozinha não sabe o que é. E nunca mais vai saber.

sexta-feira, 17 de junho de 2005

[ao som de casa pré fabricada]

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